Texto de apoio do filme: ENTRE OS MUROS DA ESCOLA

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA

Por Thiago Sardenberg

 Filmes sobre escola formam um gênero a parte no cinema. “Sociedade dos poetas mortos”, “Ao mestre com carinho”, “Mr Holland – Adorável Professor”, “Mentes perigosas”, “Mudança de hábito 2”, entre outros, mitificam a figura do professor, tornando este um herói idealizado que, com sua sabedoria inabalável, transforma a vida de todos ao seu redor. Por mais que muitas vezes alguns filmes se apóiem na premissa do “baseado em fatos reais”, trata-se de uma realidade romantizada que simplifica as complexidades do tema em prol de uma mensagem edificante.

Estas referências só fazem ampliar o impacto que sofremos ao assistir “Entre os  muros da escola”, filme que rompe radicalmente com tudo aquilo que esperamos do gênero. No lugar do professor herói, temos o ser humano com todas as suas falhas e incertezas. Neste contexto, ficam evidentes as relações de poder que se constituem na sala de aula, sem que para isto o filme eleja vilões e mocinhos ou tome partido por um lado do conflito.

Indo na mão contrária da hiper-dramatização característica do gênero, o filme opta por um realismo quase documental. A câmera está sempre na mão e não há trilha-sonora incidental, resultando num registro bastante frontal do universo escolar. Assim como ocorria nos filmes do neo-realismo italiano*, o filme utiliza-se de não atores interpretando personagens muito próximos de sua realidade. Embora esteja se construindo uma ficção, até mesmo seus nomes da vida real são mantidos. Esta estratégia se aplica não apenas aos alunos, mas também a François, o professor protagonista, ninguém menos que o autor do livro no qual o filme se baseia. Ao interpretar diferentes versões de si mesmos, formam um universo ficcional que se potencializa neste choque com a linguagem documental. Muito mais que problematizar a fronteira entre realidade e representação, o filme se interessa em experiências pessoais para construir a ficção.

 Não é por acaso que, em nenhum momento, o filme apresente a vivência daqueles personagens além dos muros na escola. Somente interessa quem eles são dentro daquele contexto, que papel se exerce neste jogo de relações. A sala de aula se apresenta como um microcosmo dos dilemas sociais franceses, com sua multiculturalidade e os conflitos que resultam na xenofobia. A partir desse quadro, é fácil estabelecer um paralelo com a realidade das escolas públicas brasileiras e o eterno conflito entre alunos que buscam afirmar sua identidade e professores que não sabem como lidar com os diferentes mundos em choque. É por não apontar soluções fáceis que “Entre os muros da escola” se torna obrigatório a todos aqueles interessados na complexidade do processo educacional.

 * Neo-realismo  foi um movimento cinematográfico surgido na Itália ao final da Segunda Guerra Mundial que se caracterizou por utilizar elementos da realidade na construção ficcional (locações reais, não atores, etc), promovendo com isso uma análise social muito próxima da linguagem documental.

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