Manual de Fruição – Agosto – Filme “Jogo de Cena”

Sugestões para uma melhor fruição do filme JOGO DE CENA

SINOPSE DO FILME

Atendendo a um anúncio de jornal, oitenta e três mulheres contaram suas histórias de vida num estúdio. Em junho de 2006, vinte e três delas foram selecionadas e filmadas no Teatro Glauce Rocha. Em setembro do mesmo ano, atrizes interpretaram, a seu modo, as histórias contadas pelas personagens escolhidas. O que está em discussão é o caráter da representação. Neste filme, o jogo a ser jogado inclui pelo menos três camadas de representação – primeiro, personagens reais falam de sua própria vida; segundo, estas personagens se tornam modelos a desafiar atrizes; e, por fim, algumas atrizes jogam o jogo de falar de sua vida real.

ANTES:

1.       Leitura indicada para introdução do tema:

 

NEM TUDO É VERDADE! representação e realidade no documentário contemporâneo

Autor: Luiz Carlos Lucena

São Paulo: Editora Ativa, 2008

O documentário brasileiro ganha status de produção autoral, encontra espaço nos cinemas, agrada críticos e público. O cinema de não-ficção continua marcado, no entanto, pelo conceito de que esse tipo de filme está relacionado com a reprodução de uma realidade objetiva do mundo, apesar dos estudos sobre a imagem digital com sua maleabilidade na ilha de edição, do papel subjetivo do realizador, a confluência cada dia maior entre documentário e ficção, as questões sobre realidade e representação.

O autor destaca como objeto de estudos os filmes Favela Rising, documentário sobre a favela Vigário Geral e o grupo AfroReggae, Ônibus 174 e Estamira, com suas particularidades e complementaridades no trato da realidade; O Fim e o Princípio, de Eduardo Coutinho, e a última produção deste diretor, Jogo de Cena, o filme onde Coutinho desconstrói seu próprio modo de fazer cinema quando mistura depoimentos aparentemente reais com interpretações e produz um marco no cinema brasileiro ao discutir o que é realidade. Da Bolívia, destaca Inal Mama, Sangre de Condor, El Estado de las Cosas e Lo mas Bonito y mis Mejores Años.

Nem Tudo é Verdade discute o fato de que, ao absorver conteúdos simbólicos estandartizados e as vezes viciados, o diretor constrói em alguns casos outras realidades que estão distantes daquilo que se convencionou chamar de “retrato da realidade”. Na produção de documentários, portanto, nem tudo é verdade!

2.       Assistir aos filmes citados no livro “NEM TUDO É VERDADE! representação e realidade no documentário contemporâneo”

TRAILERS DOS FILMES NO YOUTUBE

Favela Rising, de Matt Mochary e Jeff Zimbalist

http://www.youtube.com/watch?v=B5_DnxeEkts

Trecho do filme “Ônibus 174”, de José Padilha

http://www.youtube.com/watch?v=0EMPc0p1-5s

Estamira, de Marcos Prado

http://www.youtube.com/watch?v=v9ik-M5k0K4

Trecho do filme “O fim e o princípio”, de Eduardo Coutinho

http://www.youtube.com/watch?v=G5IZ5sV0-68

DEPOIS:

1.       Assistir ao programa “VISÕES DO DOCUMENTÁRIO”, no youtube, com entrevista do cineasta Eduardo Coutinho

http://www.youtube.com/watch?v=hneAOHHCszA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=jbJi_S_St88&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=ReVHCQoplro&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=vhmIE_K_V1o&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=YghK3m_p3c0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=U1F5JEVPNKE&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=gkce127y0Es&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=LUQ5CjyX4mE&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=2DuQdor9Gx0&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=Kn9XqMkJeOY&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=eEntpvbtLyA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=UF0cFksr1vU&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=WHtBZt3rMQM&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=MRDptCpaMEk&feature=related

2.       Leitura indicada para aprofundamento do tema:

INTRODUÇÃO AO DOCUMENTÁRIO

Autor: Bill Nichols

Editora Papirus, 2005

 

Organizado como uma série de perguntas sobre o vídeo e o filme documentário, Introdução ao documentário oferece uma visão geral dessa forma fascinante de fazer cinema. As perguntas compreendem questões de ética, definição, conteúdo, forma, tipo e política. Porque abordam o mundo em que vivemos e não um mundo imaginado pelo cineasta, os documentários diferem, de maneira significativa, dos vários tipos de ficção (ficção científica, terror, aventura, melodrama etc.). Eles estão baseados em suposições diferentes sobre seus objetivos, envolvem um tipo de relação diferente entre o cineasta e seu tema e inspiram expectativas diversas no público.

 

Essas diferenças, como veremos, não garantem uma separação absoluta entre ficção e documentário. Alguns documentários utilizam muitas práticas ou convenções que frequentemente associamos à ficção, como, por exemplo, roteirização, encenação, reconstituição, ensaio e interpretação. Alguns filmes de ficção utilizam muitas práticas ou convenções que freqüentemente associamos à não-ficção ou ao documentário, como, por exemplo, filmagens externas, não-atores, câmeras portáteis, improvisação e imagens de arquivo (imagens filmadas por outras pessoas).
Como as idéias sobre o que é e o que não é adequado ao documentário mudam com o tempo, alguns filmes inflamam o debate dos limites entre ficção e não-ficção.

 

3.       Assistir ao filme “PAN CINEMA PERMANENTE”, de Carlos Nader (exibido em março no projeto ESCOLA VAI AO TEATRO)

Trailer do filme no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=_Lc1z2g66As

4.       Ler o texto sobre o filme “PAN-CINEMA PERMANENTE”, publicado no blog do Teatro Escola SESC, por ocasião de sua exibição no projeto ESCOLA VAI AO TEATRO

PAN-CINEMA PERMANENTE

Por Thiago Sardenberg

Convencionou-se afirmar que documentário é o gênero cinematográfico que lida com o real. Não por acaso, o principal festival de documentários do Brasil se chama “É TUDO VERDADE”. No entanto, trata-se de uma noção bastante contestada e que cada vez mais vem sendo problematizada por filmes que afirmam exatamente o contrário: tudo é cinema, logo tudo é construção.

É também o que afirmava Waly Salomão, personagem central do filme que apresentamos hoje: tudo é teatro. Segundo ele, “para viver você só precisa de mentiras. Ilusões, ilusões, novas ilusões.” Não são poucas as analogias que Waly realiza entre o cinema e a vida. Waly se diz formado pelo cinema e afirma que “a memória é uma ilha de edição”.

É interessante observarmos como o filme de Carlos Nader busca criar uma narrativa que espelhe a visão de mundo de Waly. A cena de abertura pode gerar estranhamento naqueles que ainda acreditam que documentário não passa de uma reportagem jornalística produzida pro cinema. Uma vitrine de televisões, som ambiente, nenhum narrador com sua voz onipresente nos situando naquela imagem. Um primeiro corte e a câmera se aproxima da vitrine, até finalmente se fixar numa única TV, onde é exibida uma entrevista com Waly Salomão para uma emissora Síria. E é para a câmera que Waly se apresenta, fala de sua infância, da sua origem árabe. É o suficiente para que entendamos nestes poucos minutos de projeção o que pretende o filme: tornar Waly o narrador de sua própria história. Os depoimentos dos amigos e familiares estão lá apenas para legitimar o modo singular de Waly enxergar a vida. Pois se o mundo é um grande teatro, nada mais coerente que o palco esteja montado para Waly brilhar.

E ele brilha! Sua constante encenação da própria vida toma a tela de assalto com tamanha força que nos fascina ao ponto de tornar os depoimentos mera redundância. Já não faz muita diferença ouvir alguém falar sobre o poeta, queremos ver Waly. E o que vemos é um domínio da câmera de fazer inveja a muito apresentador de televisão, a ponto do próprio diretor do filme em um determinado momento se queixar por não ter conseguido filmar Waly desarmado em nenhuma cena sequer.

Eis aqui o ponto central da nossa discussão. Ao revelar sua frustração por não conseguir captar um momento de verdade de Waly, Carlos Nader revela sua intenção inicial: apresentar o homem por trás da máscara. O que o motiva, portanto, é uma busca pelo real. Mas será que este tipo de registro é realmente possível quando quem está sendo filmado afirma com veemência ser “contra o culto da transparência, pois é mascarado que se vai adiante”?

Ao esbarrar nas barreiras impostas por Waly, Nader acaba por realizar um filme sobre a impossibilidade de se registrar o real. Na busca pelo homem, encontra um grande, imenso personagem de cinema. Talvez não exista melhor maneira de prestar tributo a este grande artista, pois se “poesia é ação” e “a morada do ser poeta é o mundo eletrônico”, nada mais belo que assistir ao poeta em seu domínio da tela de cinema, o espaço da ação por excelência.

FONTE: https://teatroescolasesc.wordpress.com/2011/04/14/pan-cinema-permanente/

 

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