SAMBA E BOSSA NOVA: MÚSICA DO BRASIL

Por Thiago Sardenberg

                A música brasileira serve de inspiração para uma série de documentários com propostas estéticas totalmente diversas, demonstrando como um mesmo tema pode ser abordado das mais variadas maneiras. Esta diversidade de estilos nos faz notar que documentário não é um gênero facilmente classificável.

O que os sete curtas-metragens apresentam em comum é que cada um ao seu modo busca evidenciar a relação entre a cidade e o artista. A música é indissociável do berço cultural que lhe dá forma. Mais do que a genialidade individual de cada artista, os filmes tratam sobre a maneira com que a cultura local alimenta as suas criações.

Em Heitor dos Prazeres, esta relação se dá na primeira pessoa, com o próprio artista sendo filmado em seu ateliê, falando sobre sua arte e seu bairro Cidade Nova. Sua presença física no local que lhe serve de inspiração é fundamental para o filme. Martinho da Vila Paris 1977 pega o sentido contrário para chegar num resultado bastante semelhante, filma o artista distante da sua terra local, evidenciando sua condição de estrangeiro, o que também acaba por sublinhar a importância das suas raízes.

Carioca, suburbano, mulato, malandro – João Nogueira, ao contrário dos filmes anteriores, adota uma narração na terceira pessoa, sendo do jornalista Sérgio Cabral a voz off que conduz o filme. E o que ele narra apenas sublinha o que já está explicitado nas imagens – a apresentação de João Nogueira como um legítimo carioca suburbano. Entre registros documentais de rodas de samba, cerveja e mocotó, uma cena destoa do conjunto. Trata-se do bate-papo sobre futebol entre João Nogueira e Sérgio Cabral, o primeiro com a camisa do Flamengo e o segundo com a do Vasco, cena claramente encenada que rompe com a espontaneidade do restante do filme.

Álbum de música busca um panorama mais amplo da MPB no início dos anos 70 e por conta disso acaba por descentralizar a narrativa com depoimentos de diversas personalidades sem que isso interfira na unidade do filme.

Já os dois filmes de Rogério Sganzerla, Brasil e Noel por Noel, diferem dos demais por apresentarem uma linguagem mais experimental. Em ambos a narrativa se constrói através da edição de imagens de arquivo que mais uma vez enfatizam a questão do berço cultural como elemento catalisador da genialidade do artista. São cenas de época, personagens históricos, documentos, fotografias e manuscritos que em conjunto nos ajudam a entender a origem de canções como Aquarela do Brasil de Ary Barroso ou os clássicos de Noel Rosa. Desta forma Sganzerla vai além da música para tratar a questão da identidade nacional.

O último filme, Pixinguinha e a velha guarda do samba é o único cuja relação do artista com a cidade não é o ponto central. O filme trata da recuperação da filmagem de uma apresentação de Pixinguinha 50 anos depois. O impacto que estas imagens exercem hoje em dia evidencia não apenas a imortalidade da música de Pixinguinha, mas também o poder do cinema para a construção de cenas que ultrapassam as barreiras do tempo.

Ao final deste conjunto de filmes podemos concluir que assim como a MPB, o cinema brasileiro é igualmente uma arte multifacetada, resultado deste rico e diversificado caldeirão cultural chamado BRASIL.

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