PAN-CINEMA PERMANENTE

Convencionou-se afirmar que documentário é o gênero cinematográfico que lida com o real. Não por acaso, o principal festival de documentários do Brasil se chama “É TUDO VERDADE”. No entanto, trata-se de uma noção bastante contestada e que cada vez mais vem sendo problematizada por filmes que afirmam exatamente o contrário: tudo é cinema, logo tudo é construção.

É também o que afirmava Waly Salomão, personagem central do filme que apresentamos hoje: tudo é teatro. Segundo ele, “para viver você só precisa de mentiras. Ilusões, ilusões, novas ilusões.” Não são poucas as analogias que Waly realiza entre o cinema e a vida. Waly se diz formado pelo cinema e afirma que “a memória é uma ilha de edição”.

É interessante observarmos como o filme de Carlos Nader busca criar uma narrativa que espelhe a visão de mundo de Waly. A cena de abertura pode gerar estranhamento naqueles que ainda acreditam que documentário não passa de uma reportagem jornalística produzida pro cinema. Uma vitrine de televisões, som ambiente, nenhum narrador com sua voz onipresente nos situando naquela imagem. Um primeiro corte e a câmera se aproxima da vitrine, até finalmente se fixar numa única TV, onde é exibida uma entrevista com Waly Salomão para uma emissora Síria. E é para a câmera que Waly se apresenta, fala de sua infância, da sua origem árabe. É o suficiente para que entendamos nestes poucos minutos de projeção o que pretende o filme: tornar Waly o narrador de sua própria história. Os depoimentos dos amigos e familiares estão lá apenas para legitimar o modo singular de Waly enxergar a vida. Pois se o mundo é um grande teatro, nada mais coerente que o palco esteja montado para Waly brilhar.

E ele brilha! Sua constante encenação da própria vida toma a tela de assalto com tamanha força que nos fascina ao ponto de tornar os depoimentos mera redundância. Já não faz muita diferença ouvir alguém falar sobre o poeta, queremos ver Waly. E o que vemos é um domínio da câmera de fazer inveja a muito apresentador de televisão, a ponto do próprio diretor do filme em um determinado momento se queixar por não ter conseguido filmar Waly desarmado em nenhuma cena sequer.

Eis aqui o ponto central da nossa discussão. Ao revelar sua frustração por não conseguir captar um momento de verdade de Waly, Carlos Nader revela sua intenção inicial: apresentar o homem por trás da máscara. O que o motiva, portanto, é uma busca pelo real. Mas será que este tipo de registro é realmente possível quando quem está sendo filmado afirma com veemência ser “contra o culto da transparência, pois é mascarado que se vai adiante”?

Ao esbarrar nas barreiras impostas por Waly, Nader acaba por realizar um filme sobre a impossibilidade de se registrar o real. Na busca pelo homem, encontra um grande, imenso personagem de cinema. Talvez não exista melhor maneira de prestar tributo a este grande artista, pois se “poesia é ação” e “a morada do ser poeta é o mundo eletrônico”, nada mais belo que assistir ao poeta em seu domínio da tela de cinema, o espaço da ação por excelência.

– Sugestão de filme para aprofundamento do debate sobre realidade e representação: Jogo de cena, de Eduardo Coutinho (será exibido em agosto no projeto “Escola vai ao teatro”)

Por Thiago Sardenberg

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