O lugar do índio no Brasil¹

Durante mais de 400 anos – desde o Descobrimento até o início do século 20 –, os índios brasileiros só podiam contar com a ajuda de Tupã. Ignorados pelo resto da Nação, essa população vivia entregue à sua própria sorte, tendo sido diminuída à medida que o país crescia.

Nos primeiros anos do século 20, com as expedições do Marechal Rondon pelo interior do Brasil para a expansão das linhas telegráficas, os índios voltaram a ocupar um lugar sob o sol nacional. Os filmes que Rondon apresentava nos grandes centros urbanos apresentavam a ideia de um índio puro, exótico, intocado e, ao mesmo tempo, incapaz de tomar suas próprias decisões – um selvagem bom e infantilizado. Ao mesmo tempo, suas ocas estavam no meio do caminho das expansões econômicas. Para proteger os primeiros habitantes do Brasil, a pátria mãe gentil estendeu seus braços para acolher seus indefesos filhos e criou mecanismos para a proteção dos índios, como a implantação de grandes fazendas agrícolas para assentamento de indígenas. Assim, reforça a imagem do índio como um ser incapaz, que depende da proteção do Governo – imagem que existiu por muitos anos e ainda perdura.

Os curtas-metragens que serão exibidos na sessão de hoje trazem em comum o tema da demarcação da terra indígena. No filme Ãgtux, os índios Maxacalis recebem terras devastadas, com poucos recursos hídricos, vegetais e animais, mas se adaptam e continuam a manter as suas tradições, como a caça. Essas tradições são apresentadas no filme Jornada Kamayurá, que mostra hábitos, atividades e características daquela cultura. Bubula, o cara vermelha traz o relato de um cinegrafista que registra os primeiros contatos, nos quais já se observa a expansão do garimpo na área indígena, fazendo com que essa população seja remanejada para o Parque Nacional do Xingu. Já Mato ele?, documentário irônico que bem representa o cinema-faca de Sergio Bianchi, revela os conflitos entre índios e madeireiros no Paraná e a suspeita ação da Funai no estado.

Com terra ou sem terra, o índio brasileiro continua ocupando um lugar indefinido no Brasil. A questão das demarcações de terras indígenas permanece até hoje. A Constituição de 1988 garantiu direitos aos índios e assegurou – ao menos no papel – seu lugar como cidadãos. Mas esses povos de riqueza cultural tão vasta têm mesmo um lugar no Brasil?

[1] Wagner Bettero Barros é cientista social e integra a equipe da Assessoria de Cultura do Teatro da Escola Sesc de Ensino Médio. E-mail: wbettero@escolasesc.com.br.

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